Vales da Uva Goethe: a primeira Denominação de Origem de vinhos de Santa Catarina

No extremo sul catarinense, entre as encostas da Serra Geral e o litoral, uma região construiu ao longo de um século algo que não existe em nenhum outro lugar, vinhos brancos de uva Goethe. Em junho de 2025, essa trajetória chegou ao topo do sistema brasileiro de indicações geográficas. A região deixou de ser Indicação de Procedência e passou a Denominação de Origem, a primeira DO de vinhos do estado.
A DO abrange um total de oito municípios sendo eles: Urussanga, Pedras Grandes, Morro da Fumaça, Cocal do Sul, Treze de Maio, Orleans, Nova Veneza e Içara. Dentro desse recorte há uma área demarcada de 458,9 km², definida pelos divisores de água das bacias dos rios Urussanga e Tubarão — daí o nome no plural. Só ali podem estar os vinhedos amparados pela origem. O clima é subtropical úmido, com chuvas bem distribuídas e forte amplitude térmica, resultado da posição entre a serra e o Atlântico.
A Lei nº 9.279/1996 prevê duas espécies de registro, sem hierarquia entre elas uma a Indicação de Procedência, que se apoia na notoriedade do nome geográfico e outra a Denominação de Origem, que exige demonstração técnico-científica de que o meio geográfico e o saber-fazer determinam as qualidades do produto.
A região obteve a IP em 2012, treze anos depois, a PROGOETHE pediu a mudança de espécie ao INPI, deferida em 10 de junho de 2025 (RPI nº 2.840). A delimitação e os municípios não mudaram mas o que mudou foi a comprovação jurídica do vínculo entre território e produto, o rigor do controle e o valor simbólico e mercadológico da garrafa.
A uva Goethe foi criada em 1851 por Edward Staniford Rogers, em Salem, Massachusetts, do cruzamento entre Carter (Vitis labrusca) e Black Hamburg (Vitis vinifera). Identificada primeiro como "Rogers nº 1", ganhou o nome do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe.
Chegou ao Brasil pelos viveiros de Benedito Marengo, em São Paulo, e foi disseminada em Santa Catarina por Giuseppe Caruso Mac Donald. Os imigrantes italianos instalados na região desde 1870 tinham visto suas castas europeias fracassarem ali, as parreiras cresciam, mas os frutos não amadureciam, gerando vinhos ácidos. Entre as alternativas testadas, a Goethe foi a que se adaptou.
O reconhecimento dos brancos locais levou à criação, em 1942, do Instituto de fermentação de Urussanga, depois denominada como Subestação de Enologia e hoje Estação Experimental da EPAGRI. Do cultivo secular surgiram clones: o Goethe Primo (1920) e o SCS420 Goethe Cristal, ambos de acidez mais baixa. A DO ampara a Goethe Clássica e a Goethe Primo.
A DO abrange vinhos brancos e vinhos leves brancos (secos, suaves ou demi-secs), espumantes brut e demi-sec (método tradicional e tanque) e licorosos.
Os brancos têm corpo leve a médio, acidez equilibrada e perfil floral e frutado: flores brancas, flor de laranjeira, pêssego, maçã verde, abacaxi, maracujá, frutas silvestres e, às vezes, um toque de mel. Os espumantes mantêm esse perfil com leveza e efervescência. O licoroso, com adição de álcool vínico ou mosto concentrado, é a versão mais concentrada da variedade.
A importância dessa uva é o resultado de ser a primeira IG vitivinícola registrada fora do Rio Grande do Sul e é a única do setor no país dedicada a uma variedade híbrida, e não a castas finas de Vitis vinifera. A IG também impulsionou o enoturismo, com roteiros de visitação e a Vindima Goethe, festa da colheita em Urussanga que chegou à 18ª edição em janeiro de 2026.

Carlos Suárez Cancelo
Meu nome é Carlos, sou entusiasta do vinho, pesquisador e estudante de enologia e sommelier.
WSET 2 transmito meus conhecimentos nas redes sociais.
Vamos brindar pela vida, chin chin amig@s 🍷.